O fim: tributo ao Nazaré
Um muito obrigado a todos os que por cá passaram. Este é o meu tributo:
Numa noite destas sem sono, recostei-me na cama, acendi a luz da mesa de cabeceira e comecei a imaginar. Imaginei uma praia, o mar e uma leve brisa, ao fundo algo preto na areia debatia-se. Era uma cria de baleia piloto, eram visíveis as dobras na cauda e ao longo do corpo, não teria mais de um mês de vida. Provavelmente ter-se-á perdido do grupo, afastou-se por algum motivo e acabou nas areias da Nazaré. Prontamente recolhida por um grupo de pessoas que a levou para um lugar onde a pudessem cuidar. Precisaram de muita ajuda, de engenho, arte e muita dedicação.
Passadas duas semanas deste dia visitei a baleia, ou melhor, a mini-baleia. De olhos fechados, apenas se mantinha à superfície com a ajuda de flutuadores. Alimentada por sonda, sempre de olhos cerrados como quem não quer ver o mundo que a rodeia. A sobrevivência deste animal somente existia na mente dos optimistas ou dos ingénuos. Era uma tarefa impossível, nem com um milagre!
A baleia cresceu, foi para uma piscina maior e já não tinha medo de encarar o mundo.
Passados alguns meses esta piscina já não era suficiente para ter o Nazaré (entretanto assim baptizado). Nazaré agora precisava de uma piscina maior, mais profunda e é aí que as vidas de muitos de nós se cruzam e entrelaçam com a vida do Nazaré. Foi com imenso gosto e prazer que acolhemos esta baleia.
No dia que o Nazaré chegou, na Lagoa montou-se um cordão humano para o proteger de embater nas paredes da piscina que até aí não conhecia. Este cordão humano era mais, muito mais que um conjunto de pessoas de mãos dadas, era uma corrente de muita esperança, cada um era um elo de entrega e dedicação. Foi um cordão que, simbolicamente, e daquele dia em diante mostrou-se incansável numa árdua tarefa: manter a baleia viva, saudável, feliz!
Dias e noites longas se seguiram. O Nazaré e a sua "mãe" escada deram-nos tanto trabalho. Horas e horas de preparação da papa, de limpeza das seringas. Muitas noites frias de inverno dentro de água para alimentar a nossa baleia.
Não posso deixar de imaginar uma dessas noites. Seriam umas três da manhã e alguém vem pé ante pé dizer que está na hora. A muito custo levanto-me, os olhos não se querem manter abertos mas consigo vestir as calças impermeáveis. Lá fora está um frio de rachar e um vento que corta até ao osso. Entro dentro de água, seguro a baleia e de repente todo este sofrimento varre-se quando, ao por a mão na boca do Nazaré, ele começa a chuchar. De olhos cerrados tal e qual a primeira vez que o vi. Aquilo acalma-o e aquece-me. Nunca esquecerei aquele sentimento. Sentia-me pai, sentia-me mãe, senti que independentemente do que pudesse acontecer eu e todos aqueles que ali estavam aquela hora da manhã nunca, mas nunca abandonariam ou desistiriam do Nazaré.
Continuou a crescer, muitos sustos e percalços pelo caminho. Aos poucos a piscina era dele. Uma diferença abismal entre a baleia que não saía debaixo da escada e a baleia rei da Lagoa.
O povo é sabedor e lá diz que "há males que vêm por bem". Acredito que umas chuvas torrenciais em Fevereiro foram um desses males. A baleia veio para o Delfinário. Novo capítulo na vida do Nazaré.
Uma piscina maior e com outros habitantes. Mas o Nazaré já há muito que tinha mostrado ser um sobrevivente, um lutador e como tal não se deu por vencido. Rapidamente, e piscina a piscina foi-se apoderando do espaço e criando novos laços como outros cetáceos - os golfinhos.
Como baleia mimada não pudémos deixar de a incluir na apresentação e ao fim de não muito tempo já era presença obrigatória. Fazia furor entre o público quer tivessem 8 ou 80 anos. Muitas lágrimas vi eu correr de anónimos e conhecidos, sentados na bancada, numa catarse de emoções sempre que o Nazaré entrava. Uma música arrepiante e uma mensagem sentida comoveu multidões. O milagre aconteceu.
Sem explicação, sem nada fazer prever o Nazaré desapareceu das nossas vidas, já não está mais. Não compreendo, não faz sentido mas quanto mais vivo mais me convenço que não é suposto entender. Fica a saudade, fica dor, fica o vazio de todos os que sentiam o Nazaré como "seu".
Muito fica por dizer, muito ficar por explicar. Brincadeiras na água com o Nazaré, as "birras" da baleia, os seus brinquedos, os seus gostos e desgostos. E para tal deixo um espaço em branco para todos aqueles que se dedicaram ao Nazaré preencherem com as suas memórias e saudades.
Já não sei se imaginei ou vivi. Não me lembro se é realidade ou ficção, mas esquecida não será!
O Nazaré viveu e viverá para sempre nos nossos corações, nas nossas lembranças e na nossa vida. Um adeus para sempre a esta baleia gorda e feia.





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